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CONTOS
- Acredite se quiser
- Toque ginecológico
- O dia em que recebi voz
de prisão
- Tragédia de um encanecido
- O dia em que
nada falei
- Encontro comDeus
ACREDITE SE
QUISER
..... Sempre
gostei de assistir a audiências. Acho que se aprende muito vendo a
atuação de outros profissionais. Um dia, estava aguardando no foro com
um cliente que seria interrogado e resolvemos esperar a nossa vez
dentro da sala, onde outro réu estava sendo ouvido por uma Juíza.
Observem essa estória.
.....
Era uma audiência especial, na qual a magistrada estava explicando ao
réu, acusado de porte de entorpecente para uso próprio, que o
representante do Ministério Público lhe tinha oferecido o benefício da
suspensão do processo, previsto na Lei n° 9.099/95, isto é, o
procedimento ficaria suspenso durante dois anos, não haveria
julgamento, mas ele deveria comparecer ao cartório mensalmente para
justificar suas atividades, sendo que ao final do biênio estaria
extinta sua punibilidade. – “Mas como ( ? ), sou inocente”, defendeu-se.
.....
A Juíza quis ouvi-lo. A narrativa chega a ser engraçada, com todo
respeito. Contei esse caso para muitas pessoas e confesso que ninguém
acreditou.
.....
O rapaz era taxista e numa noite estrelada foi levar uma senhora ao
aprazível bairro de Santa Tereza. Quando voltava para a Zona Sul, um
casal de jovens fez sinal e ele parou. Queriam ir para Ipanema. Estava
com sorte. Faria duas boas corridas e, como já era tarde, poderia ir
para casa.
.....
Na descida de uma das ladeiras do bairro, ao virar certa curva,
deparou-se com uma blitz da Polícia Militar um pouco mais à frente.
Mesmo antes de efetivamente se aproximar com seu táxi, um PM fez sinal
para que parasse. Percebeu que a menina, que estava no banco de trás do
automóvel, tentou atirar algo pela janela; todavia, errou. O objeto
bateu na coluna interna do carro e, por uma dessas peças de mau gosto
pregadas pelo destino, caiu dentro de sua camisa, em suas costas.
.....
No exato momento em que o policial se aproximou do carro, o taxista
estava tentando tirar o objeto de dentro da blusa, em atitude suspeita,
na visão de quem o olhava. O próprio PM fez o serviço, ao revistá-lo.
Era um saquinho cheio de maconha. Foi conduzido à Delegacia. O casal
que estava no táxi negou a propriedade da erva. Não adiantou o
motorista defender-se perante a autoridade policial. Não acreditou na
estória e por isso estava ali, naquele dia, perante a Juíza. Ela, que
escutou calada, disse somente uma frase, com uma frieza de congelar
fogueira: -“É melhor que o senhor aceite a suspensão do processo”. Ele
aceitou.
.....
Meus amigos não acreditaram na estória do taxista, contada numa dessas
quintas-feiras, em uma mesa de mármore do Bar Villarino. O Delegado
também não, assim como a Juíza. Acho que só eu acreditei.
Topo
TOQUE GINECOLÓGICO
.....O
Título dessa estória foi dado por George Tavares, brilhante e
respeitado advogado criminalista, mostrando toda sua genialidade e bom
humor.
.....
A esposa do réu nos procurou no escritório. Estava extremamente
nervosa. O marido havia sido preso preventivamente. Respondia a
processo por atentado violento ao pudor, acusado de haver introduzido
seu dedo indicador na vagina de uma menina de doze anos. Detalhe: ela
era excepcional.
.....
Muita gente já deve estar se perguntando, mesmo antes de eu continuar:
“como é que um advogado consegue defender um sujeito desses”? Li
pensamentos? Lembro-me, quando ouço essa pergunta, de um de meus
mestres, Evaristo de Moraes, que falava, ao ouvir comentários
semelhantes, que o mesmo que critica o advogado criminalista, um dia,
se for surpreendido por uma fatalidade qualquer e se veja envolvido num
processo criminal, vai querer que o defensor faça por ele tudo o que
ele sempre repudiou em nossa profissão. Deixa pra lá.
.....
Digressões à parte, voltemos ao caso. O nosso cliente era muito querido
em seu prédio. Participava, aos sábados e domingos, de todas as peladas
do condomínio. Não raro, organizava churrascos e festas. Sempre
animado, contava com o apreço dos demais moradores. Casado, tinha duas
filhas, que estavam sempre brincando com as outras crianças. Enfim, era
um ser social. Tinha uma família.
.....
Certo dia, o prédio amanheceu sob a sombra de um escândalo. Corria
solta a notícia de que, num dos churrascos, o cliente, ao descer pelo
elevador em companhia da menininha excepcional, que brincava em sua
casa com suas filhas – estava levando-a ao encontro dos pais, que
aguardavam no playground –, introduziu um de seus dedos na vagina
desprotegida da pobre coitada, fazendo-a sangrar. A menina se queixara
de dores no local, e os pais, ao perceberam a calcinha manchada de
sangue, obrigaram-na a falar, e ela, com muito custo, disse que tinha
sido o cliente. Verdade? Mentira?
.....
Imediatamente procuraram a polícia. A garota confirmou ao delegado o
que já dissera. A notícia se espalhou. O vizinho, amigo de todos,
passou a ser o monstro, recebendo olhares teratológicos. Não era mais o
social do prédio. O Instituto Médico Legal constatou a lesão na
genitália. Ouvido na DP, nosso cliente negou tudo. Porém, não tinha
muito como se defender, pois de fato pegou o elevador com a menininha.
Só estavam os dois. E ela apareceu sangrando.
.....
O delegado representou por sua prisão preventiva, e o Juiz a decretou,
alegando que ele era uma ameaça à ordem pública, porquanto, em
liberdade, poderia atacar outras crianças. Foi preso e enclausurado
numa delegacia na Pavuna, no alto de um morro, sem qualquer mordomia,
imiscuído com presos comuns, uma vez que não tinha curso superior.
Contou com a boa vontade dos policiais, que não revelaram aos outros
custodiados a acusação. Caso contrário, talvez, hoje, eu não pudesse
estar contando com fidelidade essa estória.
.....
Fomos visitá-lo. Tive excelente impressão dele, que procurava afastar a
depressão realizando trabalhos na delegacia, contando com uma certa
liberdade e condescendência. Virou o que se chama de “preso faxina”.
Não ficava, por conta disso, todo o tempo na cela. Iríamos,
imediatamente, pedir a revogação de sua custódia cautelar. Falamos com
o magistrado, que afirmou que esperaria o interrogatório do acusado e
somente depois analisaria nossa petição.
.....
O processo se iniciou. Fizemos várias outras visitas ao cliente.
Conquanto ele estivesse preocupado com o desfecho do caso, sempre o
encontrávamos cada vez mais entrosado e à vontade na Delegacia. Cheguei
a pensar que tivesse mesmo feito amizade verdadeira com alguns
policiais, tamanha a cordialidade de tratamento.
.....
O cliente foi interrogado. Muito nervoso, não passou boa impressão ao
Juiz, que não revogou sua prisão. Impetramos um habeas corpus
e aguardávamos o julgamento pelo Tribunal de Justiça. Nesse meio tempo,
foi marcada a audiência para oitiva das testemunhas de acusação, e o
representante do Ministério Público insistiu na oitiva da menininha.
Este seria o dia decisivo para o cliente.
.....
Surpreendentemente, na data designada, a mãe compareceu só e esclareceu
ao magistrado que a garotinha estava contando outra estória. Não tinha
sido o cliente. Ela havia se machucado enquanto brincava com as filhas
dele, no apartamento, e ficou com medo de contar, temerosa de
represálias de sua genitora. Esta própria já não sabia mais no que
acreditar. Reiteramos o pedido de revogação da prisão e, desta vez,
fomos atendidos.
.....
Expedido o
alvará de soltura, fomos eu e Kátia Tavares, minha
companheira de escritório e causa, cumpri-lo, juntamente com o
Oficial de Justiça, na delegacia da Pavuna. Lá chegando,
me apresentei, dei a notícia ao policial de plantão e
pedi que chamassem o cliente. O inspetor me disse que o procurasse no
estacionamento. Estranhei, todavia, fui. Para minha surpresa, ele
estava estacionando as viaturas no pátio. Chamei-o, empolgado em
dar mais uma notícia de liberdade a um cliente – é
o momento mais feliz em nossa profissão
– “Rapaz, você está livre. Vamos embora.
Sua família está te esperando”. Ele respondeu: -
“Doutores, não sei como agradecer, sou inocente. Mas,
podem ir. Vou depois. Ainda tenho que fazer uma série de
serviços aqui e, além disso, não posso ir sem me
despedir da rapaziada”.
Virou o social da Delegacia.
Topo
O
DIA EM QUE RECEBI VOZ DE PRISÃO
.....
Ano de 1997. A Lei n° 9.099/95, que deu vida aos Juizados Especiais
Criminais ( e cíveis ) e criou procedimento diferenciado para os
chamados crimes de menor potencial ofensivo – dentre eles o de
lesão corporal dolosa leve – dava seus primeiros passos,
não sendo, naquela época, ainda, muito bem compreendida e
aplicada por alguns Delegados de Polícia,
informação pertinente para o final desta estória.
.....
Uma das importantes modificações procedimentais relativas
aos “crimes menos graves” é a
proibição de se impor prisão, no caso de
flagrante, sendo, conseqüentemente, defeso à autoridade
policial arbitrar fiança para permitir que o autor do fato
responda em liberdade. Basta que este, mediante termo escrito, se
comprometa a comparecer em Juízo, quando convocado, para impedir
a lavratura do auto de prisão em flagrante, que foi
substituído por um termo circunstanciado, espécie de
registro de ocorrência.
.....
Naquele ano de 1997, fui chamado às pressas para dar
assistência a um famoso artista que havia sido conduzido por
Policiais Federais para a sede da Praça Mauá, na
região do Cais do Porto do Rio de Janeiro. Segundo soube,
preliminarmente, por meio de seu empresário, ele estava sendo
acusado de agredir uma aeromoça dentro de um avião que
aguardava para decolar, e que, por conta do ocorrido, não
decolou.
.....
Cheguei na Polícia Federal e me deparei com dezenas de pessoas
com o uniforme da companhia aérea. Logo encontrei,
também, o empresário e o artista. Este narrou-me que
apenas encostou no braço de uma aeromoça que tentou
impedir sua passagem de uma cadeira para outra e a moça, de
forma descontrolada, sentiu-se agredida, chamando o comandante, e ele,
por sua vez, convocou a força policial. Daí, foi
conduzido para delegacia, no caso, federal, em virtude de ter sido o
suposto crime cometido dentro de aeronave.
Procurei o Delegado responsável pelo procedimento. Fui informado
por um escrivão que ele havia começado a “lavrar o
flagrante” do crime de lesão corporal dolosa leve e estava
ouvindo a vítima. “Lavrando o flagrante”?
“Como, se é caso de Lei 9.099/95”? “Doutor,
não decido nada, é melhor o senhor falar diretamente com
o chefe”.
.....
Pedi licença e entrei na sala. O Delegado era um homem enorme,
falava alto e tinha cara de poucos amigos. Pressenti um final de tarde
difícil. “Doutor Delegado, o escrivão deve estar
equivocado. Disse que o senhor está lavrando o auto de
prisão em flagrante”. “Não, Doutor, ele
informou certo. Estou lavrando, sim”. “Pelo crime de
lesão corporal dolosa leve”? “É, Doutor.
Estou ouvindo a vítima e preciso continuar, se o senhor
permitir. Mas, não precisa se preocupar, vou arbitrar
fiança”. “Como, fiança”? Realmente,
seria um final de tarde difícil.
.....
Lembro-me que tentei, educadamente, fazer algumas
ponderações. “Doutor Delegado, com todo o respeito,
esse é um caso de Lei 9.099/95, que o senhor deve conhecer bem
melhor do que eu”. “Conheço a Lei muito bem, Doutor,
e estou lavrando o flagrante”. “Doutor Delegado, pela Lei
9.099/95, que, repito, o senhor deve conhecer melhor do que eu,
não há lavratura de auto de prisão em flagrante e
nem arbitramento de fiança”. “Meu filho”,
falou ainda mais alto, “quem decide isso sou eu, estou presidindo
o ato e você já está me atrapalhando”.
Advogado passa por cada uma. O pior é que eu estava com um
exemplar da lei em minha mãos. Saí da sala do Delegado.
Fui à sala do Superintendente da Polícia Federal no Rio
de Janeiro, a quem narrei o que estava ocorrendo. Este ligou para o
Delegado e também ponderou que era caso de lavratura de termo
circunstanciado e não de flagrante. De nada adiantou. Voltei e o
artista começou a ser ouvido, na condição, naquele
momento, de preso. Eu estava ao seu lado.
.....
Ao final do depoimento, o escrivão pediu a minha carteira da
OAB. “O senhor pode até fazer constar a minha
presença, porque eu estou presente”, disse eu.
“Contudo, não vou assinar nada, pois se trata de um ato
absolutamente ilegal. Estou orientado o meu cliente a também
não assinar”.
.....
O Delegado pulou da cadeira. “Está querendo aparecer para
o cliente, não é, Doutor? Além disso, está
me desacatando, por isso, o senhor também está
preso”, vociferou o Delegado. “Doutor Delegado”,
retruquei de imediato, “então o senhor também
está preso, pois está cometendo crime de abuso de
autoridade. Aliás, dois crimes de abuso de autoridade. Um contra
meu cliente e outro contra mim, já que está nos prendendo
ilegalmente. Estamos todos presos. Meu cliente, o senhor e eu”.
“O quê”?
.....
A confusão que se instalou naquela sala vocês podem
imaginar. A turma do deixa disso chegou e somente o cliente continuou
preso, pagou fiança e foi embora.
.....
Mas, eu não assinei o auto de prisão em flagrante.
Topo
TRAGÉDIA DE UM ENCANECIDO
.....F.
sempre foi um homem bom, amado pela família e querido pelos
amigos. Não se casou. Não teve filhos. Aos sessenta e
poucos anos, aposentado, resolveu comprar, com o dinheiro economizado,
fruto de trabalho duro, uma casa numa pequena e tranqüila cidade
situada na região dos lagos do Rio de Janeiro, nas margens da
Lagoa de Araruama. Queria desfrutar seu tempo livre levando uma vida
tranqüila. Infelizmente, não conseguiu.
.....Ao
se mudar para a nova cidade, F. conheceu uma menina quase quarenta anos
mais nova. Era prostituta. Apaixonou-se. Sentiu-se renovado. Cheio de
energia. Parecia remoçado. Não tinha mais sessenta e
poucos anos.
.....Tirou-a
“da vida”, propiciou-lhe estudo, conseguiu formá-la
advogada. A cidade à beira da Lagoa, escolhida para curtir a
velhice, ficou pequena demais para eles. Todos na localidade a
conheciam e não dissociavam o passado do presente. Ela sempre
seria a prostituta.
.....F.
vendeu a casa à beira da lagoa. Mudaram-se para uma cidade do
interior do estado do Rio de Janeiro, que, como a anterior,
também era bem pequena. Agora, sim, pensou F., encontraria a paz
procurada, ao lado da jovem mulher que amava. Iniciava-se a
tragédia.
.....A
nova casa era geminada a de um casal de idosos. O vizinho,
também um senhor, com seus setenta anos, era, simplesmente,
vereador e pastor evangélico, o que, numa cidade pequena,
representava muito poder, que ele efetivamente exercia junto à
população e às autoridades locais. Tinha oito
filhos e mais de vinte netos. Inversamente ao que sugeria a
religião da qual aquele senhor era líder, ele e seus
familiares eram pessoas truculentas, ignorantes e de difícil
trato.
.....Não
demorou para que os primeiros atritos com os vizinhos começassem
a surgir. Pequenos problemas, de simples resolução, ao
invés de serem contornados com urbanidade, redundavam em
discussões e ofensas. A moça, voluntariosa, e
impulsionada pelo vigor da pouca idade, sempre tomava as dores de F. e
a frente das discussões. Não raro, era humilhada pelo
vereador e seus filhos.
.....Certa
vez, os vizinhos pararam um caminhão na frente da garagem de F.,
impedindo-o de sair com seu carro. De nada adiantaram os pedidos para
que a garagem fosse liberada. Eles não retiraram o
caminhão. Faziam aquele tipo de coisa de propósito, pelo
simples prazer de incomodar. Eram desse tipo de gente, donos da
verdade, acima do bem e do mal. Mais uma vez, a moça foi
reclamar. Mais uma vez, foi humilhada, ouvindo a surrada e cafajeste
sugestão de que seria melhor que procurasse um tanque para lavar
roupa, ao invés de ficar criando casos. Nesse dia, F.
intercedeu. Foi fisicamente agredido por dois filhos do vereador,
dentro de seu próprio quintal, na frente da mulher. Tentou
registrar ocorrência na delegacia de polícia local, mas o
delegado se recusou. Era amigo do vizinho.
.....Dois
anos se passaram. As brigas, ofensas, provocações e
humilhações continuavam. A moça começou a
cobrar de F. uma postura mais viril, “de homem”, diante dos
vizinhos. Ela dizia que já estava cansada daquilo, insinuando
que, caso ele não se impusesse, fazendo cessar as
provocações, o trocaria por alguém mais novo, que
certamente o faria.
.....Era
o fim. Tudo o que imaginara para seu resto de existência dera
errado. Não gozava da tranqüilidade tão almejada.
Estava prestes a perder a mulher, por quem se apaixonara, que lhe
devolvera a juventude. Voltou a ter seus sessenta e poucos anos.
* * * *
.....
F. estava descascando uma laranja, sentado na frente do portão
de casa, como a vida interiorana permite. O vereador passou por ele e,
para não perder o costume, provocou, dizendo que ele era um mal
educado, que estava emporcalhando a rua. F., com os brios tocados,
lembrou-se da companheira, que lhe cobrava mais energia diante daquelas
situações, e retrucou, asseverando que não
admitiria mais aquele tipo de atitude do vizinho. Este, por sua vez,
retirou-se dali, mas, no entanto, disse que voltaria e resolveriam o
assunto mais tarde. E voltou.
.....
F. estava em casa e ouviu a campainha. Foi abrir a porta. Sua
companheira observava. Era o vereador, que, ao se deparar com F.,
deu-lhe uns tapinhas no rosto, perguntando, ironicamente, se havia um
homem de paz na casa. A moça lhe perguntou, diante de mais uma
provocação, se não iria fazer nada. F. fez. Pegou
um revólver, que jamais havia utilizado. Seu intuito, conforme
me contou, era o de unicamente colocar o vizinho para fora de seu
terreno, intimidando-o, na vã esperança de que o deixasse
em paz.
.....O
vereador, pessoa ruim, não se intimidou. Achando que seria
baleado, tentou se apoderar da arma de fogo. Os dois começaram a
lutar pela posse do revólver. A esposa do vereador, vendo a cena
de seu portão, correu para acudir o marido. Durante a contenda,
a arma disparou, percutindo uma bala no peito da senhora. Tiro fatal.
.....F.
foi para sua residência. Alojou-se no quarto e esperou a
polícia chegar. Foi preso em flagrante. Sua vida havia acabado.
.....
Fui procurado pela família. Aceitei a causa na hora. Seria uma
das mais bonitas da minha vida. Convidei para atuar comigo meus
queridos amigos, e excelentes advogados, Marcelo Camara e Tiago Lins e
Silva. Conseguimos, através de um habeas corpus
impetrado perante o Tribunal de Justiça, colocar F. em
prisão domiciliar. Ele adoeceu gravemente. Parecia imolar-se,
auto-punindo-se pela morte involuntária da vizinha. Sua
companheira enlouqueceu.
.....Eu,
Marcelo e Tiago não chegamos a ter a honra de defendê-lo
no Júri. F. morreu antes. Já não reconhecia
ninguém. Enfim, encontrou a tranqüilidade que tanto buscava.
Topo
O DIA EM
QUE NADA FALEI
.....Há
clientes que não precisam de nós. Articulam a própria
defesa e, mesmo tendo advogado constituído, a exercem
sozinhos. Isso acontece muito em casos de competência do
Juizado Especial Criminal.
* * * *
.....A
pedido de um amigo, acompanhei a uma audiência preliminar –
tentativa de conciliação – um rapaz que foi indicado,
em sede policial, como autor de lesões corporais num colega de
profissão. Ambos são motoristas de táxi e, por
conta de desentendimentos acerca do pagamento de mensalidades de uma
associação, que explora ponto em Ipanema, certo dia,
engalfinharam-se, resultando equimoses e hematomas nos dois.
.....O outro apresentou, na delegacia, três
testemunhas,
que afirmaram ter sido meu cliente o deflagrador da contenda. Este,
conforme relatou-me, a fim de dar um basta nas provocações
do colega, que o injuriava sempre que parava no ponto, para pegar
passageiro, efetivamente, por já estar no limite do tolerável,
desferiu no detrator uma saraivada de sopapos, restando a ele tentar
se defender.
.....No dia
da audiência, já conhecendo o conteúdo dos autos,
orientei-o a tentar a conciliação com a outra parte e,
se fosse preciso, até mesmo apresentar escusas. Se houvesse
essa possibilidade, e em caso de ser formulada pelo representante do
Ministério Público proposta de transação
penal ( acordo para não ter processo, como pagamento de cestas
básicas à instituição de caridade, por
exemplo ), sugeri que ele a aceitasse. Fomos para o foro.
.....De
cara, ele avistou o agredido.
- “Como
vai, irmão, tudo bem”, perguntou meu cliente.
-
“?!?!?!?!?!?!”, não respondendo, mas enrugando a testa, o
outro taxista.
- “Como
está o movimento lá no ponto”?
- “Ruim”,
respondeu, reticente, o outro.
- “Só
vai melhorar com o início dos jogos Pan Americanos, no ano que
vem”, emendou o cliente.
-
“Somente os taxistas credenciados, que fizerem um curso no Senac,
poderão levar passageiros às áreas dos jogos”,
retorquiu o outro, de má vontade, querendo encerrar a
conversa, afinal, estava diante de seu agressor.
- “Ah
é”? “Então vou ao Senac, hoje, e faço minha
inscrição e a sua. Vamos fazer esse curso juntos. Vamos
arrebentar. Ganhar um bom dinheiro. Me dá seu número do
celular”.
-
“?!?!?!?!?!?!”, incrédulo e enrugando a testa, novamente,
o outro.
- “Anda,
me dá logo o número, te aviso em que data iremos
começar”.
- “Estou
sem tempo”, resmungou o outro.
-“Tempo
se arranja. Qual é o número”?
.....Acho
que por estar meio baratinado com o falatório, e não
acreditando no que estava acontecendo, o outro taxista, que ali se
encontrava na condição de vítima, diante do
autor das lesões corporais, sem ter tempo de raciocinar, deu o
número do telefone. Depois disso, antes que o Oficial de
Justiça fizesse o pregão, convocando-nos para a
audiência, transcorreram mais uns vinte minutos de incessantes
perguntas, feitas pelo meu cliente, sem que o outro pudesse respirar
para responder.
.....Enfim,
fomos chamados. Antes mesmo que o conciliador dissesse algo, o outro
taxista falou, parecendo pedir, em tom de súplica: - “Doutor,
não quero continuar com o processo”.
.....O termo
de renúncia à representação foi impresso.
Os dois assinaram. Na saída, o outro pediu ao meu cliente,
baixinho, com a intenção de que eu não ouvisse:
- “Não vai, por favor, dizer, lá no ponto, que eu
desisti do processo, pois eles vão fazer chacota de mim”.
.....Meu
cliente respondeu, bem alto, para que eu ouvisse: - “Pode deixar,
não vou falar nada. Aliás, já conversei com meu
advogado ( eu ), e não vamos tomar qualquer outra providência
judicial sobre o caso”.
.....Neste
momento, incrédulo fiquei eu. O outro taxista, coitado,
parecia desesperado. Os papéis de vítima e autor se
inverteram, graças ao talento natural de um homem que foi seu
próprio advogado.
.....Quanto
a mim, não dei uma palavra, como vocês puderam perceber.
ENCONTRO COM DEUS
.....– Doutor, esta acusação é infamante.
.....Por meio dessa frase de apresentação, conheci o Coronel, um senhor de quase noventa anos de idade, militar do exército brasileiro, ex-membro da Força Expedicionária, que, em favor das liberdades humanas, combateu, na Itália, durante a segunda guerra mundial, o exército fascista de Mussolini.
.....O Coronel chegou ao meu escritório indignado e aflito ao mesmo tempo. Acabara de ser pronunciado pelo Juízo de um dos Tribunais do Júri do Rio de Janeiro, sob a acusação de tentativa de homicídio qualificado. A acusação, segundo ele, era infamante. De acordo com a imputação estatal, ele tentara, por meio de disparo de arma de fogo, matar seu vizinho, não obtendo êxito por circunstâncias alheias à sua vontade – qual seja, pronto atendimento médico. Detalhe: o tiro percutido por sua arma, a qual possuía na condição de militar, atingiu, de raspão, a bolsa escrotal da vítima. O representante do Ministério Público entendeu que o Coronel, intencionalmente, mirou na região genital, que seria uma área letal do corpo humano.
.....A despeito de a lesão não ter causado qualquer dano maior – porquanto o tiro pegou de raspão, resultando, unicamente, em sangramento, estancado no mesmo dia, recebendo a vítima, através de atendimento hospitalar, a orientação de colocar gelo no local, além de tomar anti-inflamatórios –, na ótica acusatória, repito, o Coronel quis matar o vizinho.
.....Pedi que explicasse melhor o caso, uma vez que, até aquele momento, eu não havia tido acesso a nada, passando, então, a tomar conhecimento dos fatos. Ele contou, então, que era morador de um prédio de classe média da zona sul carioca, onde se deu o evento, desde a construção, há cerca de vinte anos, e que há uns três anos começou a ter sérios problemas com o tal vizinho, sua mulher e seu filho pequeno. De acordo com o Coronel, eles deram início a uma obra interminável, jogavam entulho em sua varanda (as varandas eram contíguas), o garoto chutava sua porta e, o pior de tudo, deixavam o cachorro urinar no hall, o que acontecia de maneira recorrente. Chegou-se ao ponto de a esposa do Coronel, uma senhora distinta, ter de jogar desinfetante nas portas de casa. Não adiantava pedir. Os reclamos eram respondidos com insultos. É importante esclarecer que o vizinho, bem como sua esposa, possuía uns quarenta anos de idade.
.....Certo dia, continuou narrando o Coronel, encontrava-se com sua mulher, em casa, quando ouviram um barulho vindo da porta de serviço, como se alguém estivesse batendo com algum objeto. Zuleide, mulher do Coronel, foi ver. Um líquido escuro passava pela fresta da porta. Ao abri-la, deparou-se com a vizinha, que havia jogado água e estava varrendo o desinfetante jogado por ela para amainar o odor do xixi do cachorro da vítima, que urinou no hall de serviço, mais uma vez. Estabeleceu-se a discussão: Zuleide reclamava da urina do animal e a mulher do vizinho do desinfetante. Zuleide disse que eles eram porcos, retorquindo a aleivosia de que era uma velha maluca. Nesse instante, apareceu a vítima, que também xingou Zuleide. O Coronel, ouvindo, de dentro de casa, a discussão que se travava na porta de serviço, apareceu, de pijama, e pediu que o vizinho parasse, porquanto tudo aquilo já estava ultrapassando o limite tolerável. Também foi xingado. Disse, então, que iria trocar de roupa. O que se passou, em seguida, modificou, para sempre, a vida do Coronel e de sua esposa.
.....Quando o Coronel entrou, Zuleide virou de costas, caminhando em direção à porta, recebendo, inexplicavelmente, um soco na cabeça, desferido pelo vizinho, que a fez cair ao solo. No chão, perto de sua mão, havia uma lata, a tal lata do desinfetante, a qual, ao levantar, arremessou contra o agressor, que corria para sua residência.
.....Agredida e desnorteada, Zuleide, de um telefone da cozinha, ligou para a polícia, mantendo a porta de serviço entreaberta. Ao terminar a ligação, percebeu que o vizinho agressor estava saindo de casa, em direção ao elevador. Humilhada e confusa, a mulher do Coronel muniu-se de uma faca de cozinha e tentou impedir que o vizinho deixasse o prédio, sob o argumento de que ele teria de esperar a chegada dos policiais.
.....Ao avistar Zuleide com a faca, indo em sua direção, o vizinho antecipou-se, e xingando-a, de novo, agarrou-lhe o braço, torceu-o para trás, posicionou-se por detrás daquela senhora, tomou dela a tal faca, continuando a segurá-la com uma das mãos, e com a outra passou a desferir sopapos em sua cabeça. Nesse momento, ouvindo os gritos de sua mulher, o Coronel apareceu.
.....Diante da cena, que se passava no pequeno hall de serviço, o Coronel, com seus quase noventa anos de idade, vendo sua mulher ser manietada pelo vizinho – que lhe torcia o braço e a xingava de velha maluca –, tentou dar-lhe um soco, a fim de desvencilhá-la do algoz. Foi em vão. Sendo assim, o Coronel falou: – Larga ela, senão vou pegar minha arma. No que o vizinho respondeu: – Pega a sua, que eu vou pegar a minha.
.....O Coronel entrou e voltou armado com um revólver. Porém, o vizinho continuava a segurar sua mulher, posicionando-se atrás dela, fazendo-a de escudo. O Coronel efetuou um único disparo, para baixo e para o lado, mesmo porque se atirasse na direção do vizinho, poderia acertar Zuleide, vez que ela estava posicionada na frente do agressor. Quis o destino que o projétil batesse no chão, ricocheteasse numa parede, depois em outra, e atingisse, pela retaguarda, de raspão, o saco escrotal do vizinho, que, somente assim, largou a senhora, correndo para sua residência e lá se trancando.
.....Superada a fase policial, o Coronel foi denunciado por tentativa de homicídio qualificado. Inexplicavelmente pronunciado, foi submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. Atuei no julgamento na companhia de Renato Hallak, meu querido amigo e grande advogado, que, naquele dia, brilhou. Sustentamos duas teses: a primeira, que o júri não era competente para decidir, pois o caso, no máximo, era de lesão corporal leve, de atribuição de um Juízo comum, e não de tentativa de homicídio, e, em segundo lugar, que o Coronel, caso ultrapassada a argumentação inicial, agiu em legítima defesa de sua esposa. O Conselho de Sentença entendeu pela desclassificação para lesão corporal, e o Juiz, condenando-o por este delito, aplicou-lhe reprimenda que estava prescrita.
.....Encerrado o julgamento, com a sentença lida pelo magistrado, em Plenário, um dos jurados passou pelo Coronel e disse: – Parabéns, Coronel, eu faria exatamente o mesmo.
.....Alguns meses depois, perto de seus noventa anos, o Coronel faleceu. Acredito que estava somente esperando o resultado do julgamento, afastando de si aquela acusação infamante, para encontra-se com Deus.
Ppostado em 20/04/2008
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